Início Agência de notícias Debatedores pedem mais discussão sobre proposta que substitui Lei de Segurança Nacional

Debatedores pedem mais discussão sobre proposta que substitui Lei de Segurança Nacional

Unânimes em defender a revogação da Lei de Segurança Nacional, que tem origem no período da ditadura militar, participantes de audiência pública da Comissão de Legislação Participativa da Câmara nesta sexta-feira (23) se mostraram preocupados com a proposta (PL 6764/02) que está sendo examinada pelos deputados para substituir a lei em vigor.

Parlamentares, integrantes da sociedade civil organizada e juristas criticaram principalmente o pedido de urgência para a votação do projeto em plenário. Segundo eles, o tema é complexo e a pressa na discussão pode resultar na continuidade da criminalização de movimentos sociais, entre outras preocupações.

Pablo Valadares/Câmara dos Deputados
Margarete Coelho, relatora da proposta

Na audiência, a Lei de Segurança Nacional foi classificada como “entulho autoritário”, criada com a intenção de perseguir opositores ao regime. De acordo com os debatedores, ela tem sido usada recentemente para tolher a liberdade de expressão. A relatora da proposta que substitui a legislação atual, deputada Margarete Coelho (PP-PI), ressaltou que a Lei de Segurança Nacional envergonha o sistema jurídico brasileiro.

“É uma legislação extremamente antidemocrática, que coloca civis sob a jurisdição militar, que vê cidadãos como inimigos da pátria, que tenta amordaçar e criminalizar os movimentos sociais e não dialoga com a Constituição, que nos deixou como dever a votação de uma lei de defesa do Estado Democrático de Direito”, disse a deputada.

Definições abstratas

A relatora acrescentou que já foram feitas 20 reuniões para discutir o projeto e que está sendo examinada a décima versão do texto original. Os participantes da audiência, no entanto, apontaram alguns tipos penais muito abertos e definições abstratas.

Os participantes da discussão salientaram que tanto a Constituição de 1988 quanto a legislação internacional sobre Direitos Humanos devem balizar a proposta. O desembargador Marcelo Semer, do Tribunal de Justiça de São Paulo, afirmou que ela não pode funcionar como uma forma de sufocar a democracia e resumiu quais parâmetros devem ser seguidos.

“Não pode coibir a crítica nem a ação dos movimentos sociais; não pode colocar em risco o pluralismo, porque é uma premissa constitucional; não pode construir tipos abertos que deixem a punição a critério do juiz; tem que impedir a responsabilidade objetiva; e sem penas absurdas ou desconexas.”

Espionagem

Durante a audiência pública, foram sugeridas melhorias em itens como violência política, comunicação enganosa em massa, as chamadas fake news e a insurreição, que é impedir o exercício dos poderes constituídos. Muitos participantes também viram problemas no item sobre espionagem, que se refere à divulgação de documentos governamentais considerados sigilosos. Bruna Martins, da Coalizão de Direitos na Rede, que reúne entidades em defesa dos direitos digitais, pediu cautela nessa questão.

“Especialmente num Estado como o nosso, que abusa de recursos como a classificação de documentos, o tipo penal pode ser um incentivo direto para a subversão dos princípios presentes na Lei de Acesso à Informação e na Constituição Federal e acabar restringindo e criminalizando também a atividade jornalística ou de movimentos sociais que realizem denúncias de irregularidades para parceiros governamentais”, argumentou.

Pablo Valadares/Câmara dos Deputados
Talíria Petrone: texto ainda não contribui para aprofundar a democracia brasileira

A deputada Margarete Coelho explicou que o pedido de urgência foi feito para evitar um “vazio jurídico”, já que existem quatro ações sobre a Lei de Segurança Nacional sendo examinadas pelo Supremo Tribunal Federal. A deputada Taliria Petrone (Psol-RJ), que propôs o debate, afirmou que o texto atual ainda não contém o que é importante para substituir a lei de 1983.

“São tempos difíceis e a gente espera que possamos entregar para o povo brasileiro algo que refute o que é o nosso passado autoritário e que contribua, de fato, para o aprofundamento da democracia brasileira”.

A previsão é de que a proposta que substitui a Lei de Segurança Nacional seja votada pelo plenário da Câmara no dia 4 de maio, mas já há pedidos para o adiamento desse prazo, para que a discussão possa ser aprofundada.