Tatiana Sampaio: cientista brasileira revoluciona ao trazer movimentos a seis tetraplégicos

Cientista Tatiana Sampaio é chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ
Cientista Tatiana Sampaio é chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ / Foto: Reprodução UFRJ

Pesquisa liderada por cientista da UFRJ avança com medicamento brasileiro que já trouxe recuperação de movimentos a seis pessoas com tetraplegia e abre nova etapa de testes clínicos

Você já parou para pensar no que significa mexer um dedo? Para muita gente, é algo automático. Mas, para quem sofre uma lesão na medula, esse simples gesto pode mudar tudo.

É nesse ponto que entra a história de uma cientista brasileira que vem chamando atenção ao ajudar seis tetraplégicos a recuperar movimentos.

O trabalho dela nasce dentro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e já recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para avançar nos testes em pessoas.

A saber, a cientista é Tatiana Sampaio, professora e pesquisadora que lidera um estudo sobre um medicamento chamado polilaminina.

Em resumo, o projeto começou há quase 30 anos, com pesquisa em laboratório e muitos testes até chegar ao momento atual.

Agora, a cientista e sua equipe entram em uma nova fase, com foco na segurança do tratamento em pacientes com lesão recente na medula.

A cientista por trás da polilaminina

Tatiana Sampaio é cientista e professora do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ. Ela estudou e construiu sua carreira na própria universidade, com passagens de pesquisa fora do país.

Hoje, coordena um grupo com cerca de 15 integrantes, entre estudantes e profissionais da área da saúde.

A cientista dedica a vida ao estudo da matriz extracelular, estrutura que dá suporte às células do corpo.

Então, foi nesse caminho que surgiu a polilaminina, uma proteína produzida em laboratório a partir da laminina, substância já conhecida por participar de processos de regeneração.

Segundo a cientista, a ideia sempre foi entender como ajudar o sistema nervoso a se reconectar após uma lesão.

Na prática, a polilaminina atua estimulando neurônios que deixaram de crescer. Além disso, pode incentivar a formação de novos axônios, que são como fios responsáveis por levar os sinais do cérebro para o resto do corpo.

Ainda mais, por ser uma proteína e não um organismo vivo, o medicamento apresenta menor risco de rejeição.

Outro ponto importante é que pode ser fabricado, armazenado em freezer e usado logo após o trauma, durante a cirurgia.

Assim, a proposta da cientista é aplicar a substância entre três e quatro dias depois da lesão, período visto como estratégico para tentar recuperar funções motoras.

Ginasta Lais Souza (à esquerda) conhece Dra. Tatiana Sampaio, que lhe apresenta o laboratório onde estuda a polilaminina há mais de 25 anos – Reprodução Instagram @lalikasouza

O que já se sabe sobre os resultados

Antes da nova fase autorizada pela Anvisa, a cientista já acompanhava casos de pacientes que receberam a polilaminina.

Entre oito voluntários, seis apresentaram algum tipo de melhora. Em alguns casos, houve retorno do movimento de braços e pernas. Em outros, a recuperação foi parcial.

Vale mencionar que o caso mais conhecido é o de Bruno Drummond de Freitas. Após um acidente de carro em 2018, ele recebeu o diagnóstico de tetraplegia.

Meses depois do procedimento, percebeu que um dos dedos do pé se mexia. A partir dali, iniciou um processo de reabilitação que levou à recuperação dos movimentos do corpo.

Contudo, a cientista faz questão de lembrar que cada pessoa reage de um jeito.

Sendo assim, o acompanhamento após a cirurgia é parte central do tratamento. Fisioterapia, cuidados médicos e tempo de recuperação fazem diferença no resultado.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, o Brasil registra cerca de 8,4 mil casos de trauma raquimedular por ano.

A maioria envolve homens na faixa dos 30 anos, muitas vezes vítimas de acidentes de trânsito. Por isso, o avanço da pesquisa da cientista chama atenção de famílias, médicos e pacientes.

No entanto, é preciso cautela, pois mesmo com os relatos positivos, o medicamento ainda precisa passar por etapas obrigatórias.

Para tanto, a nova fase contará com mais cinco pacientes e será realizada em hospitais do Rio de Janeiro. Esse processo pode levar anos até que o tratamento esteja disponível na rede hospitalar. Mas que é um sopro de esperança, isso, sem dúvida!

Vida da cientista no laboratório e fora dele

A cientista divide o tempo entre aulas, pesquisas e entrevistas. Desde que os resultados ganharam espaço na mídia, a rotina ficou diferente. Ainda assim, ela mantém o foco no laboratório, onde a polilaminina foi desenvolvida.

Tatiana também é mãe de dois filhos e abriu as portas de casa para uma ex-aluna que hoje faz mestrado. A relação começou no ambiente de pesquisa e virou convivência familiar. Para a cientista, formar pessoas é parte do trabalho.

Ela já afirmou que não esperava tanta repercussão. O desejo sempre foi ver a ciência sair do papel e chegar à vida real. A repercussão veio depois, junto com debates e trocas com outros grupos de pesquisa no Brasil e no exterior.

A saber, o laboratório responsável pela patente do medicamento é o Cristália, que investe cerca de R$ 28 milhões para que o produto avance até as prateleiras dos hospitais.

Enquanto isso, a cientista segue acompanhando cada etapa, com atenção às regras e aos dados coletados.

A história dessa cientista mostra como a pesquisa científica pode caminhar ao lado de histórias humanas. Não se trata apenas de um estudo em laboratório, mas de pessoas que aguardam uma chance de recuperar os movimentos.

Sim, é fato que o caminho ainda tem etapas a cumprir. Mas, mesmo assim, o trabalho da cientista já abre espaço para novas conversas sobre tratamento de lesão medular no Brasil.

Atualizações sobre a polilaminina

Por fim, vale chamar a atenção ao fato de que muitas pessoas estão se aproveitando para aplicar golpes. A Dra. Tatiana Sampaio não tem Instagram!

E veja só! A polilaminina não está sendo comercializada. Desse modo, busquem sempre os canais oficiais, o SAC do laboratório Cristália (sac@cristalia.com.br) e a equipe responsável pela pesquisa.

Segue comunicado oficial do Laboratório Cristália:

“Atualmente, estamos iniciando o Estudo Clínico de Fase I, voltado para lesões agudas, sendo essa a primeira etapa de estudo regulatório em humanos, com o objetivo principal de provar a segurança do medicamento.

Os dados experimentais de que dispomos atualmente permitem afirmar que:

– O produto deverá apresentar eficácia e segurança para uso em pacientes na fase aguda, com janela ótima de aplicação em até 72 horas da lesão;

– É possível inferir que pode haver eficácia e segurança no uso do produto durante a fase subaguda (até poucas semanas do momento da lesão);

– A eficácia do produto deve diminuir quanto mais distante do momento da lesão ele é aplicado.

No caso de lesões com mais de 90 dias (crônicas), estamos conduzindo estudos experimentais em animais para definir como – e se – o tratamento poderá ser realizado em humanos.

Até o momento, os dados disponíveis não permitem dizer que o uso em pessoas com lesões crônicas é seguro e eficaz. Assim, é importante destacar que, neste momento, não recomendamos o uso em pessoas com lesões crônicas.

Sabemos da expectativa desse público e, caso haja inclusão em estudos futuros, essa informação será divulgada oficialmente por nossos canais”.

Com informações a Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Laboratório Cristália

Total
0
Shares
Related Posts